Poucos compositores mantiveram uma presença tão constante na cultura musical ocidental como Johann Sebastian Bach. Mais de dois séculos e meio após a sua morte, a música de Bach continua a ser interpretada, estudada e adaptada em contextos muito diferentes daqueles para os quais foi originalmente concebida. Esta permanência não resulta apenas da preservação do seu repertório, mas também da capacidade das suas obras de gerar novas leituras e de funcionar em diferentes formações instrumentais sem perderem a sua identidade musical.
Apresentado na data em que se assinala a morte do compositor, este programa propõe uma reflexão sobre essa capacidade de permanência e transformação, destacando uma característica fundamental da sua escrita: a estreita relação entre a música vocal e instrumental. Nas suas cantatas, oratórios e obras de câmara, os instrumentos não desempenham apenas uma função de acompanhamento, mas participam activamente na construção do discurso musical, ao mesmo tempo que identificamos uma qualidade instrumental na escrita vocal do compositor
As obras do programa, tanto as instrumentais como as vocais, pertencem a momentos distintos da produção bachiana. A Trio Sonata em Sol Maior, BWV 1038, pertence ao conjunto de obras de câmara associadas ao período de Leipzig. Embora subsistam dúvidas quanto à autoria integral da peça, esta é hoje geralmente atribuída a Bach com possível participação de um dos seus filhos. No centro do programa encontra-se o Largo da Sonata sopra il Soggetto Reale, integrante do Musikalisches Opfer (BWV 1079), uma das últimas grandes obras de Bach. Composta na sequência do célebre encontro com Frederico II da Prússia, em 1747, esta colectânea reúne cânones, fugas e obras de câmara construídos a partir de um tema fornecido pelo monarca. Frequentemente considerada uma síntese do pensamento contrapontístico do compositor, a obra demonstra a extraordinária capacidade de Bach para desenvolver um mesmo material musical através de múltiplas soluções formais. A Trio Sonata em Mi bemol maior, BWV 525, a primeira das seis trio sonatas para órgão compostas provavelmente durante os anos de Leipzig para a formação musical do seu filho Wilhelm Friedemann. Estas obras ocupam um lugar singular no repertório para órgão: embora destinadas a um único intérprete, apresentam três vozes completamente independentes, reproduzindo o modelo da trio sonata italiana. A versão para flauta, oboé e baixo contínuo apresentada neste concerto torna particularmente evidente essa estrutura e ilustra a capacidade da música de Bach para conservar a sua coerência para além da instrumentação original.
A cantata Weichet nur, betrübte Schatten (BWV 202) é uma das poucas cantatas profanas integralmente preservadas e terá sido composta durante o período de Köthen para uma celebração nupcial. Numa fase em que as responsabilidades de Bach privilegiavam sobretudo a música instrumental, esta obra destaca-se pela qualidade da escrita vocal e pela sucessão de recitativos e árias que acompanham o florescimento da natureza como metáfora do amor e da união matrimonial.
Meine Herze schwimmt im Blut (BWV 199), é uma cantata sacra composta em Weimar em 1714 sobre um texto de Georg Christian Lehms. Escrita para soprano solista, apresenta um percurso espiritual que conduz da culpa e do arrependimento à reconciliação e à esperança de salvação. A ária Stumme Seufzer, stille Klagen ocupa um lugar central nesta trajectória dramática, condensando alguns dos procedimentos expressivos mais característicos do jovem Bach.
Da produção vocal tardia provém Seele, deine Spezereien, da Oratória de Páscoa (BWV 249). A obra surgiu a partir de uma cantata profana composta para a corte de Köthen e posteriormente adaptada para o contexto litúrgico da celebração pascal em Leipzig. Este processo de transformação ilustra uma prática recorrente na actividade composicional de Bach, que frequentemente reutilizava e reformulava obras anteriores para novas circunstâncias e funções. Longe de representar uma simples reutilização de materiais, este procedimento permitia ao compositor atribuir novos significados musicais e textuais a uma mesma música.
A permanência da música de Bach não resulta apenas destas práticas de transformação. Resulta também da singularidade da sua linguagem musical. Herdeiro de várias tradições europeias, Bach levou a escrita barroca a um grau de complexidade e de elaboração sem paralelo na sua época, explorando as possibilidades do contraponto, da harmonia e da construção formal com uma profundidade que continua a desafiar intérpretes, compositores e ouvintes. No entanto, essa sofisticação nunca se traduz em mero exercício intelectual: mesmo nas obras mais elaboradas, a clareza do discurso musical e a força expressiva permanecem intactas. É talvez nesta conjugação rara entre complexidade e inteligibilidade, entre rigor construtivo e capacidade comunicativa, que reside uma das razões da universalidade da sua música. Entre memória e transformação, a sua música permanece em movimento, renovando continuamente a sua presença na vida musical contemporânea.
Diana Vinagre | Violoncelo barroco e direção artística
Carolina Andrade | Soprano
Tami Krausz | Flauta traversa barroca
Pedro Castro | Oboé barroco
Haru Kitamika | Órgão